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segunda-feira, 29 de junho de 2020

"Lembro-me Que Morri"

Reportagem sobre as Experiências de Quase-Morte de pessoas que foram dadas clinicamente como mortas e conseguiram sobreviver para contar aquilo que viram. Na maioria destas experiências, as pessoas referem que saíram do próprio corpo, que viram um túnel e uma intensa luz branca. A ciência e a religião têm ao longo da história tentado fazer prevalecer cada uma a sua visão. No entanto, o tema das EQM ainda não reúne consenso na comunidade médica.


O psiquiatra Mário Simões, o Dr. Manuel Domingos, o professor Alexandre Caldas e o psicólogo Vítor Rodrigues, são alguns dos intervenientes nesta reportagem. 






"Lembro-me que Morri" é uma Grande Reportagem da autoria do jornalista Jorge Almeida, com imagem de Rui Cardoso, edição de Luís Vilar e produção de Amélia Gomes Ferreira. Transmitido no programa Linha da Frente da RTP1 em 11 Abril 2013.



domingo, 30 de dezembro de 2018

Experiências de Quase Morte - Histórias de Quem Esteve no Limite

Muitos afirmam que a única certeza na vida é a morte, mas mesmo assim este é um tema que levanta grandes questões e muitas dúvidas. Há quem fale numa luz ao fundo do túnel, na visão do próprio corpo, em sensações de paz ou de frio. Os relatos são muitos e variados, mas quem viveu uma Experiência de Quase Morte garante que a vida nunca mais é igual. É o caso de José chagas,  Conceição Espada, Isabel Wolmar e Margarida Rebelo Pinto, quatro portugueses que passaram por essa experiência. 




A sensação de quem já viveu esta experiência é sintética e unânime, mas difícil de justificar à luz do conhecimento humano atual. Conheça a história de três mulheres que passaram por este momento: Conceição Espada, a jornalista Isabel Wolmar e a escritora Margarida Rebelo Pinto. Também a opinião do Dr. Manuel Domingos






sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

Experiência de Quase Morte (EQM): uma abordagem empírica

Este livro (de distribuição gratuita) apresenta os aspectos principais de uma EQM, as consequências para a vida de quem passa por essa experiência, além dos principais resultados da investigação de doutorado da Dra. Beatriz F. Carunchio, realizada com 350 participantes brasileiros.




Uma EQM acontece quando um paciente em morte clínica ou próximo dessa condição é reanimado e descreve recordações do período em que esteve "morto". Alguns descrevem com uma precisão espantosa o que aconteceu no local durante o breve período em que estiveram mortos. Outros relatam encontros com entes queridos falecidos, visitas a outras realidades, o encontro com uma luz muito brilhante que irradia aceitação e amor... Alguns contam terem visto a vida inteira a passar diante de seus olhos, enquanto outros afirmam que tiveram alguns flashes do futuro. O fenómeno é curioso e mais comum do que imaginamos. Nesta obra de distribuição gratuita a autora explica um pouco sobre as EQMs e o que acontece durante esse tipo de experiência, além das consequências que podem deixar na vida daqueles que passam por elas. Também são apresentados alguns dos principais resultados da tese de doutorado da autora, realizada com uma amostra de 350 participantes brasileiros.


Download em versão PDF ou EPUB




Beatriz F. Carunchio é neuropsicóloga com o título de especialista concedido pelo Conselho Federal de Psicologia.

Tem mestrado e doutorado em Ciência da Religião na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). É membro do Interpsi – Laboratório de Psicologia Anomalística e Processos Psicossociais do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IP-USP). 

O seu consultório fica em São Paulo e escreve no blog A Rosa dos Ventos 



domingo, 15 de janeiro de 2017

Provas da Vida Depois da Morte - Jeffrey Long e Paul Perry (2016)


“Existe vida após a morte? O doutor Jeffrey Long defende que, se olharmos para as provas científicas, a resposta é inequívoca - sim -“ (Time)

“Jeffrey Long e Paul Perry fizeram um trabalho fenomenal na clarificação das mais importantes ocorrências no estudo das experiências de quase morte. O trabalho do doutor Long coloca-nos mais perto de uma explicação racional para o mistério da vida além da morte.” (Raymonde Moody)



"Provas da Vida Depois da Morte" dá a conhecer os testemunhos de pessoas das mais diversas partes do mundo que viveram experiências de quase morte.

Experiências fora do corpo, passagens por túneis, encontros com luzes místicas e com outros seres, espirituais ou conhecidos da vida terrena. São estas algumas das descrições mais comuns nestes casos.

Jeffrey Long e Paul Perry recolheram milhares de histórias em todas as faixas etárias, etnias e religiões, e concluíram que as semelhanças entre os relatos são tão impressionantes quanto reveladoras.

Alicerçado em mais de uma década de estudos, este livro absolutamente fascinante explica por que razão é mesmo possível afirmar que estas pessoas viajaram para outra dimensão antes de regressarem à vida.

Traduzido de: “Evidence of the Afterlife: theScience of Near-Death Experiences”. Nova Iorque, 2011. Edição portuguesa by Editora Nascente.


ÍNDICE
INTRODUÇÃO
1. PRIMEIROS ENCONTROS
2. VIAGEM PARA O ENTENDIMENTO
3. PROVA N.º 1: A MORTE LÚCIDA
4. PROVA N.º 2: FORA DO CORPO
5. PROVA N.º 3: A VISÃO DOS CEGOS
6. PROVA N.º 4: CONSCIÊNCIA IMPOSSÍVEL
7. PROVA N.º 5: REPRODUÇÃO PERFEITA
8. PROVA N.º 6: REUNIÃO DE FAMÍLIA
9. PROVA N.º 7: DA BOCA DAS CRIANÇAS
10. PROVA N.º 8: CONSISTÊNCIA A NÍVEL MUNDIAL
11. PROVA N.º 9: VIDAS MUDADAS
CONCLUSÃO
NOTAS



Jeffrey Long e Paul Perry


Jeffrey Long é médico oncologista no sul dos EUA. Em 1998, fundou a Near Death Experience Research Foundation, organização sem fins lucrativos que se dedica a estudar as experiências de quase morte ocorridas em todo o mundo. É presença assídua na comunicação social sempre que é discutido o assunto da vida após a morte, tendo surgido em estações televisivas como a NBC, a ABC, a FOX e o The Learning Channel. Saiba mais sobre o autor e a Near Death Experience Research Foundation em: www.nderf.org



Paul Perry é um escritor bestseller internacional, coautor de nove livros sobre experiências de quase morte, alguns deles com o doutor Raymond Moody. É também realizador de documentários. Saiba mais sobre o autor em: www.paulperryproductions.com


 EQM - Dr. Jeffrey Long e as experiências de quase morte

Entrevista com o Dr. Jeffrey Long (EUA), médico e autor  que tem dedicado a sua carreira a investigar casos de Experiência de quase morte (EQM) e Experiências fora do corpo (EFC) chegando a uma conclusão pessoal sobre a veracidade destes fenómenos.





domingo, 12 de abril de 2015

UMA LUZ AO FIM DO TÚNEL – Dr. José Miguel Gaona Cartolano






Traduzido de: “Al otro lado del túnel − Un camino hacia la luz en el umbral de la muerte”. Barcelona, 2012. Edição portuguesa by Editora A Esfera dos Livros www.esferadoslivros.pt/


ÍNDICE

Prefácio, por Raymond Moody 
Algumas palavras do autor 
     Introdução  

I. Experiências de quase-morte ao longo da história
II. Os últimos minutos de vida  
III. Neurofisiologia da morte e entendimento das EQM
IV. Os sons da morte  
V. "O túnel", uma experiência única  
VI. Viagens astrais e saídas fora-do-corpo
VII. A luz  
VIII. A vida em "filme" e o voltar para trás  
IX. Encontros com pessoas já falecidas ou entidades  
X. O meio envolvente   
XI. O regresso  
XII. Sensação de presenças. O anjo protetor?
XIII. Como lidar com as pessoas à volta  
XIV. Outras culturas e religiões perante a morte
XV. Morte ou reencarnação?  
XVI. Mortes violentas e suicídio  
XVII. Psicomanteum  
XVIII. O que são as EQM e as suas causas
XIX. O início da experiência  
XX. Categorias de EQM  
XXI. A experiência das EQM  
XXII. Técnicas para nos aproximarmos de uma EQM
XXIII. EQM traumáticas  
XXIV. Alucinações ou EQM  
XXV. Efeitos das EQM na própria vida e na dos outros
XXVI. As crianças e as EQM
XXVII. A pessoa que morre visita-nos para se despedir  
XXVIII. Visitas de familiares mortos antes da própria morte
XXIX. Aquisição de poderes paranormais ou extrapsíquico  
XXX. Morte, realidade, memória e física quântica  






Nota bibliográfica



José Miguel Gaona Cartolano nasceu em Bruxelas. Licenciado em Medicina com distinção, especializou-se em Psiquiatria na Universidade Complutense de Madrid, possui um mestrado em Psicologia Médica e é especialista em Psiquiatria Forense. Recebeu o Prémio Jovens Investigadores da Comunidade de Madrid e é membro da Associação Europeia de Psiquiatria (AEP), lecionou a cadeira de Psiquiatria na Faculdade de Medicina da UCM e foi diretor da revista Educar bien. Niños. 

Foi assessor técnico do Defensor do Menor da Comunidade de Madrid, responsável pela área de saúde mental na guerra da Bósnia para a ONG Médicos do Mundo e membro da Comissão de Honra da Fundação Altarriba de proteção animal, da qual certos membros são figuras de destaque como José Saramago, Josep Carreras ou Eduard Punset, entre outros.

Nos últimos anos trabalhou na área da neuro-teologia, ciência que analisa os fenómenos místicos e espirituais do ponto de vista neurológico. Nesta linha, dirige o Projeto Túnel, um local de encontro para pessoas que sofreram experiências de quase-morte (EQM) e que pretendem partilhar essas experiências ou abordá-las de uma perspetiva terapêutica. Atualmente é um dos diretores do IANDS Espanha (International Association of Near-Death Studies) e colabora em projetos na área das EQM juntamente com o Dr. Bruce Greyson, da Unidade de Estudos Percetuais da Universidade de Virgínia Ocidental e com a Dra. Holden, da North Texas University. 

É autor dos livros El síndrome de Eva y Endorfinas, las hormonas de la felicidad, e um dos coautores de Ser adolescente no es fácil, todos eles publicados por La Esfera de Los Libros em Espanha.




domingo, 2 de novembro de 2014

IR AO OUTRO MUNDO E VOLTAR


No novo livro de José Rodrigues dos Santos procura-se uma explicação científica para as experiências de quase-morte. Na vida real, a intriga permanece, com relatos coincidentes: luz ao fundo do túnel, bem estar, leveza. A presença de Deus ou uma reacção fisiológica?





Nas fotos do álbum cuidadosamente legendado, Sandra Caroço, 46 anos, aparece sorridente e luminosa, deitada na maca, ligada ao soro. Ninguém diria que, momentos antes, a técnica de dermopigmentação tinha estado às portas da morte. No último dia de férias na Baía, Brasil, Sandra enfrentou uma pratada de caranguejo, mais os devidos molhos e acompanhamentos. Acabado o repasto, foi sentindo o corpo a inchar, a temperatura a subir, um desconforto geral a instalar-se. Quando chegou ao pequeno centro de saúde, praticamente não conseguia respirar. E enquanto esperava que o único médico de serviço terminasse um parto, caiu para o lado, inanimada. Voltou à vida, com uma injecção de adrenalina, numa cena a la Pulp Fiction, e encontrou a amiga e companheira de viagem em pranto, a medir as palavras com que iria contar à mãe de Sandra que a filha tinha morrido.

"Voltei feliz porque estava num lugar muito agradável", justifica, 15 anos depois do episódio. A descrição que faz do que sentiu enquanto esteve inanimada é comum a outras experiências ditas de quase-morte: uma sensação de bem-estar, um ambiente calmo e sereno, uma luz, a visão de uns vultos.

Apesar de controverso, o tema tem sido objecto de estudo e há já algumas publicações científicas que apresentam dados sobre o assunto. Num artigo publicado na revista International Emergency Nursing estima-se que 4 a 9 por cento das pessoas já terá vivido uma experiência do género, uma percentagem que sobe até aos 23% quando se trata de doentes em estado terminal. Mas o mesmo também pode acontecer a pessoas saudáveis, quando estão em perigo. "Em situações de saúde muito graves, sabe-se que são produzidas no organismo substâncias, as endorfinas, que são opióides, como a morfina,  e que quando se libertam dão uma enorme sensação de bem-estar. Está descrito que nas situações de quase-morte, ou mesmo de morte, estas substâncias podem ser libertadas em grande quantidade", explica Diogo Telles Correia, psiquiatra no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, e Professor da Faculdade de Medicina.



Por conta das endorfinas


No mais recente estudo publicado pela Universidade de Southhampton, o grupo do investigador Sam Parnia, que se dedica há anos ao assunto, conclui-se que uma pessoa se pode manter consciente até três minutos depois de o coração parar de bater, apesar de o cérebro normalmente se desligar 20 a 30 segundos depois da paragem cardíaca. Parnia avança ainda que as sensações associadas à quase-morte ocorrerão enquanto se está a perder ou a ganhar consciência. E que para elas há duas explicações possíveis: uma resposta fisiológica à percepção de que a vida está em perigo, que surge por acção das endorfinas, ou uma alucinação perante a iminência da morte. 

Para Tiago Reis Marques, psiquiatra e professor no Instituto de Psiquiatria do Kings College, em Londres, há sempre uma justificação fisiológica. "Todas as experiências que fogem ao nosso controlo assustam e levam-nos a procurar interpretações, mas há uma explicação científica, lógica, para cada um destes eventos. Mesmo do ponto de vista evolutivo, faz sentido que ocorra uma sensação de tranquilidade, pois permite que as pessoas mantenham a calma e tentem salvar-se de uma situação fatal, como num afogamento, por exemplo."

A visão de túnel, que também costuma ser descrita nestas experiências, pode ser explicada pela deficiente oxigenação do córtex visual, a zona do cérebro responsável pelo processamento da visão, que provoca um estreitamento do campo visual. "Acontece também, por exemplo, com os pilotos que voam a 4G ou 5G, onde a força gravítica impede a oxigenação adequada do cérebro", explica o investigador. "Já a sensação de estar fora do corpo surge em doenças psiquiátricas, e já foi replicada em laboratório pela estimulação cerebral da região temporo-parietal direita [no cérebro]."



Memória implantada


O conjunto de sensações é tão agradável que há quem procure induzi-la, por hipnose. Mário Simões, psiquiatra e professor de Ciências da Consciência, organiza workshops em que induz estes estados. "Criamos um cenário pacífico, de repouso. E as pessoas até ficam aborrecidas por voltar de lá", conta. Para o psiquiatra, através da hipnose não se faz mais do que ir buscar uma memória que todos nós temos implantada no cérebro. A sua tese é a de que "nascemos com um programa que nos permite dar um sentido a tudo isto, um sentimento de que a morte não é um fim. ?É uma memória atávica, que nasce connosco e é transversal a todos os povos, crenças e idades. Vem ao de cima quando a morte está iminente." Mas, segundo o próprio, é preciso acreditar para que ela surja.

"Só quem busca qualquer coisa é que consegue por esta memória em marcha. Nas pessoas que não acreditam que haja algo mais do que a matéria, nunca vem ao de cima." Depois de uma experiência de quase-morte, ninguém fica igual, relata Mário Simões. ?"A  pessoa vem transformada, tem um sentimento muito forte de contacto com o divino, como se sentisse o poder da cura."

Na vida do arquitecto José Trindade Chagas, 67 anos, há um antes e um depois do acidente que o deixou em coma. Uma queda numas obras mal sinalizadas, na zona do Cais do Sodré, em Lisboa, provocou-lhe uma fractura crânio-encefálica, várias vértebras partidas, e um estado de inconsciência que se prolongou por dias. Do coma, recorda uma escuridão cerrada, um frio intenso e uma solidão sem fim. "Morrer é qualquer coisa de muito penoso". No limiar da vida, José Trindade Chagas teve a percepção de que ia morrer e decidiu resistir. 'Quero viver', pensei. E, a partir daí, deixei de ver escuro e passei a ver umas sombras e umas manchas brancas. Pelo meio, ainda me apareceu um pastor solitário", relata.

"Sabe-se que, em múltiplas situações de doença orgânica, como infecções graves, doenças cardiológicas graves, estados pós cirúrgicos, etc., os pacientes podem apresentar, como consequência de múltiplas alterações que ocorrem no organismo, um quadro de perda de consciência, com desorientação no tempo e espaço, e desenvolvimento de delírios (ideias irracionais, não compreensíveis), que podem estar relacionadas com actividades que costumavam desenvolver, por exemplo", explica Diogo Telles Correia.

José Trindade Chagas dispensa as explicações. A sua recuperação demorou dois anos. Mas o acordar do coma foi o ponto de partida para uma nova vida. Concluiu a sua tese de doutoramento, teve uma filha e passou a dar outro valor aos aspectos mais simples do dia a dia. "Hoje tenho a consciência de como é bom estar vivo. Renasci." A sensação de que terá havido uma força divina a trazê-lo de volta fê-lo reaproximar-se da igreja e até a querer falar da sua vivência, para inspirar outros a apreciarem o que têm.

Em Sandra Caroço, a experiência de quase-morte também deixou uma forte recordação. Já lá vão 15 anos, mas a sensação permanece, forte e prazerosa. Uma reserva de um lugar feliz, a que recorre sempre que precisa.



Fonte: VISÃO



sábado, 16 de agosto de 2014

Vivências em Peri-Morte ou Experiências de Quase Morte (EQMS), como Fenómeno de Expansão da Consciência!? (Dr.Manuel Domingos)

Psicologia Na Actualidade (Março 2014)


As EQMs podem ser integradas na ampla panóplia de fenómenos que consideramos como de expansão da Consciência. Acontecem, particularmente, em situações de paragem cardio-respiratória, acontecendo também em casos de coma e em pacientes anestesiados (menos frequente). Mais adiante voltaremos a esta ideia, quando abordarmos os aspectos dinâmicos deste fenómeno, a todos os títulos, intrigante e de fundamentos elucidativos ainda desconhecidos (apesar da pressa em os justificar fisiologicamente por parte de uma certa franja, fundamentalista, da comunidade científica, com medo que se descubra... bom, sei lá o quê.)

Esta situação é, quanto a nós, que partimos há cerca de 25 anos de uma posição céptica ao observarmos o primeiro caso, algo que hoje se apresenta como inquestionável do ponto de vista da sua veracidade. As explicações avançadas até ao momento, para fundamentar o seu aparecimento e dinâmica, afiguram-se (como deixámos antever no primeiro parágrafo) pouco consistentes e até algo forçadas. Referimo-nos não só às tentativas de fundamentação orgânico-mecanicistas (tantas vezes arrogantes e mergulhadas em “cadinhos de experimentação” animal não humana e, por isso, não extrapoláveis para a nossa espécie... neste contexto), mas também a toda uma panóplia de argumentos “ultra- espiritualistas” que não nos parecem satisfazer, minimamente, os critérios mínimos para que possamos chegar ao porquê das EQMs.

Na realidade, não sabemos o que se passa. Apenas podemos dizer que elas... SÃO! Por isso, e antes de avançarmos, recomendamos humildade, trabalho intenso, multi e interdisciplinaridade e total abertura ao Conhecimento, sem tabus ou “birras” porque temos à força que explicar, fisicamente ou espiritualmente, o fenómeno de modo forçado, para que não percamos o estatuto (mas qual estatuto?). Meus senhores e minhas senhoras, estimados leitores, o Saber não pode assentar numa “Feira de Vaidades” e assumir a ignorância sobre determinados factos não nos deve “beliscar o Ego”, nem provocar um catastrofismo de identidade intelectual. Afinal há tanto por conhecer, muito por descobrir e uma miríade de interrogações para reflectirmos e investigarmos, que se conhecêssemos tudo, cairíamos num “definir c’est finir” no pior dos sentidos. Por isso, vamos lá falar verdade e não ter problemas em dizer: EQMs? Existem sim mas não sabemos como se processam. Fenómeno estranho? Claro que sim. De contornos a roçar o esotérico (no sentido literal do termo)? Pois então (e não se assustem com a palavra que até vem no dicionário e que é, tão só e precisamente, o inverso de exotérico). Mas fascinante, muitas vezes regenerador do Eu que a “sofre” e, indiscutivelmente, um “apetite” para os investigadores, despretensiosos e não-fanáticos, da Consciência e dos seus Estados Alterados que, de uma forma tantas vezes a roçar a dedicação monástica (sem que isso signifique clausura), abraçam a pesquisa, respeitando o tema, com saudável, entrega, temor, dúvida, teimosia e coragem, enfrentando a tradicional “velharia do restelo” (retrato do, tradicional, atraso nacional e da, tenebrosa, mentalidade de “loby”) que ainda anda por aí e que gostava de condenar a uma ardente fogueira sócio-intelectual os que se atrevem a demandar.

Mas em que consiste tal fenómeno? Podíamos escrever dezenas de páginas sobre este aspecto mas o espaço concedido não nos permite tal. Por isso iremos abordar as manifestações das EQMs que consideramos nucleares, em termos de frequência e de impacto na pessoa.

Mas afinal, e retomando as ideias iniciais deste trabalho, o que se entende por EQM?

Para começar... nada do “outro mundo”.

Podemos conceptualizar o termo Experiência de Quase-Morte (EQM) como sendo um conjunto de senso-percepções com ou sem movimento associado, intensamente vivenciadas numa situação de Estado Alterado de Consciência. Estão, predominantemente, associadas a situações de morte clínica (paragem cardio-respiratória, mais ou menos prolongada, com traçados de ECG isoeléctricos), podendo também acontecer em pacientes anestesiados ou em estado de falência (não total) de determinados parâmetros orgânicos.


As pessoas que vivenciaram fenómeno, relatam, geralmente, uma série de factos comuns a uma larga percentagem de quem passou por tal. Temos, como mais frequentes:

1 Um estado de perplexidade por não entenderem, de imediato, a nova  "realidade" em que se encontram
2    um sentimento de paz interior;
3    a sensação de flutuar acima do seu corpo físico;
4    autoscopia
5    a percepção da presença de pessoas ou seres incorpóreos, à sua volta;
6    visão de 360o;
7   ampliação dos vários sentidos;

8  comunicação telepática;

9  a sensação de viajar através de um túnel intensamente iluminado no             fundo;

10 revivescência “relâmpago” dos, principais, factos da vida.

Devemos alertar os leitores para o fac­to de nem todas as vivências terem esta constelação de manifestações. Assim, nem sempre há a “visão” do (famoso) túnel ou os encontros com os “seres de luz” (curioso que até alguns pacientes agnósticos ou ateus, que acompanhei, assim se referiram a eles). Outro aspec­to importante a referir é que nem todas as EQMs são positivas (“visões fantas­magóricas” e ameaçadora), embora es­tas sejam uma minoria, não se sabendo o porquê de tais desvios do habitual. Certo é que, mesmo nestes casos, a ge­neralidade das pessoas, que observá­mos, referem mudanças positivas no seu quotidiano, para com os outros e para consigo mesmo. Mas, vejamos o que se passa, geralmente, após a vivência.


ALTERAÇÕES BIOPSICOSOCIAIS, PÓS EQM:

Na realidade, a maioria dos pacientes alteram, significativamente, a opinião que possuíam em relação a si e ao mundo que os rodeia.

As mudanças comportamentais são (como foi referido), regra geral, significativamente positivas. O principal factor para as alterações de atitudes poderá ser a perda do medo da morte (tanatofobia) ou mesmo a convicção, adquirida, de que essa transição vital não existe.

Passam, pois, a valorizar mais as suas vidas e a dos outros; reavaliam os seus valores, éticos e as prioridades “habituais”; tornam-se mais serenos, confiantes e solidários.

Mas não ficam por aqui as modificações do “Eu” pós-EQM. Assim, não é raro serem relatadas aquisições do que poderemos chamar faculdades hiper-psicofisio-lógicas (termo que nos veio à ideia para não usarmos... parapsicológicos, palavra que tanta “urticária” causa aos nossos positivistas mas que faz parte do vocabulário, quotidiano, de investigadores em áreas tão diversas como as neurociências, psicologia, antropologia, física quântica ou teologia, que descomplexada e empenhadamente se debruçam sobre os mistérios da Consciência por esse mundo fora, incluindo Portugal... embora aqui em número, ainda, reduzido.


Essas faculdades distribuem-se por 3 categorias:

1 Psi-Kapa − telecinése (movimento).

2 Psi-Gama − clarividência, telepatia, precognição.

3 Psi-Teta − multi-dimensionalidade do “Eu” (onde poderemos inserir as EQMs, até que novos dados, fundamentados de modo sólido e inequívoco, nos façam rever esta posição).



E, como se explicam as EQMs?

Em nossa opinião, e não só, frise-se bem que não há (de momento) nenhuma explicação satisfatória que nos leve a “embandeirar em arco” e a dizer que redescobrimos a pólvora. Nada disso. Apenas afirmamos que existem e que os que as vivenciam (analfabetos, doutorados, crentes, ateus...) as descrevem como reais e, tantas vezes saudavelmente, modificadoras da sua estrutura bio-psico-social de base (como já referimos). Também afirmamos que não são fenómenos patológicos apesar de se poderem manifestar em pessoas psicologicamente alteradas, claro. Mas a grande maioria foge a essa norma. Os relatos são, na maioria dos casos, bem estruturados e com sequência lógica. Nada que se assemelhe com alucinações ou dissociações, como defendem muitos investigadores apressados em explicar a “pura e dura” mecânico-dinâmica do fenómeno (porventura com medo de um dia correrem o risco de terem que admitir que a mente é bem mais do que um produto do, exclusivo, encéfalo, sem pôr em causa o papel relevante, desta nobre estrutura, na dinâmica da Psykê).

Muito nos “perderíamos” em considerações que dariam um livro ou quase mas, com já referimos anteriormente, não há “espaço gráfico” que nos permita estender a prosa. Só mais alguns considerandos. Primeiro, e isto é fundamental, existem milhões de relatos, por esse mundo fora, que se sobrepõem em termos de semelhança descritiva (não acredito que, apesar da proliferação, dos meios de comunicação onde insiro as redes sociais, as pessoas se ponham num qualquer facebook ou similar a combinarem umas com as outras dizerem que viram o bisavô quando estiveram “mortas” só para espalhar a confusão, irritarem os cientifico-positivistas ou encherem de gaudio os ultra-espiritualistas). Segundo, e digo-o mais uma vez e de forma veemente, essas pessoas (crianças, adultos, idosos) não mentem, até porque muitas delas nem sonhavam com a confrontação de tal cenário, de que nunca tinham ouvido falar. Terceiro, admito (tal como tantos outros estudiosos do fenómeno) que as descrições são contaminadas pelo contexto sócio-cultural e até religioso (ou não) em que as pessoas estão inseridas; mas tal não tira, qualquer, legitimidade à essência das EQMs.

Reportando-me a uma situação particular que são as EQMs em cegos de nascença não entendo como alguns cientistas, ou meros leitores da literatura sobre o fenómeno que nunca passaram pelo contacto com quem teve a vivência ou pesquisaram “ao vivo” fosse o que fosse, podem (por exemplo) afirmar que a explicação assenta numa actividade residual da visão para explicar o “túnel”. Disse...cegos de nascença que têm EQMs sobreponíveis aos que possuem uma visão normal. Como diria o saudoso Fernando Pessa: “E esta hein?"

Portanto, e finalizando esta prosa polémica acerca de um assunto ainda mais polémico, diremos que há muito para palmilhar com a tal persistência, abertura e humildade. Se assim se fizer, todos ganharemos independentemente do que, no final, se venha a apurar. Ninguém vence, ninguém perde; todos seremos beneficiados com a melhoria do Conhecimento do “Eu interior” e dos seus mistérios, banhado que está nessa grande bolha que é a inefável Consciência. Ora, já me esquecia as EQMs não provam (nem deixam de provar) que haja vida para além da morte. Afirmar ou aventar isso com base nas ditas seria um erro de palmatória. Serão, na nossa modesta opinião, sublimes fenómenos dinâmicos da expansão da nossa Consciência, que acontecem em determinado “contexto vital”.

Tudo o que se disser, agora e nos tempos que se seguirão, em jeito de afirmação peremptória será mais especulativo do que a própria especulação e, em certa medida, uma forma de fuga para a frente afim de não se perder o tal estatuto de sabedoria. E, terminando, volto a perguntar: qual estatuto? Para quê um estatuto? Convençamo-nos que estamos aqui para conhecer, mesmo que isso implique desconhecer, e ajudar o próximo numa entrega total. Por isso seria bom, como fazem os nossos colegas estrangeiros, criar consultas de atendimento a quem passa por EQMs. Não para tratar nenhuma disfunção (na maioria dos casos), mas para orientar quando existe perplexidade sobre o que se passou e/ ou se irá passar a seguir.



Manuel Domingos

- Coordenador da Unidade de Neuropsicologia do Centro Hospitalar de Lisboa
- Professor da Universidade Lusíada de Lisboa




quarta-feira, 25 de junho de 2014

APAGAR A MORTE − Dr. Sam Parnia com Josh Young

1ª Edição, Outubro de 2013



Traduzido de: Erasing Death − The Science That is Rewriting the Boundaries Between Life and Death, Nova Iorque, HarperOne, 2013. Edição portuguesa by Editora Pergaminho, uma chancela da Bertrand Editora, Lda.  www.pergaminho.pt


“As descobertas científicas mais recentes têm vindo a criar uma mudança que vem abalar a nossa compreensão da morte − desafiando as nossas percepções da morte como absolutamente implacável e final −, tendo tornado, por isso, ultrapassadas e antiquadas muitas das nossas visões mais arreigadas em relação a ela. A medicina está a tornar inteiramente plausíveis resultados anteriormente impensáveis. Poderemos em breve vir a tirar pessoas das garras da morte, ao fim de algumas horas ou muito mais tempo após terem morrido.

Porém, ao encontrar novas maneiras de salvar vidas, estamos também inadvertidamente a descobrir novas formas de investigar e responder a questões fundamentais sobre o que acontece à consciência humana, ao que podemos chamar a mente, o "ego" ou, inclusivamente, a "alma" no pós-morte − questões que, até recentemente, eram tidas por assuntos mais adequados à teologia, à filosofia ou mesmo à ficção cientifica.”

Ao contrário do que vulgarmente se acredita, a morte não é um momento único; não é algo que ocorra irreversivelmente quando o coração deixa de bater ou a respiração ou a função cerebral cessam. A morte é um processo longo e complexo − um processo que pode ser interrompido ou revertido. Em Apagar a Morte, o Dr. Sam Parnia apresenta os resultados da mais recente investigação no campo dos cuidados intensivos e da ressuscitação. Estas descobertas têm permitido aos médicos reverter o processo de morte em muitos pacientes, mas também têm levantado questões pertinentes sobre a natureza da consciência. O debate destas questões permitirá, finalmente, começar a esclarecer a questão que acompanha a humanidade há milénios: o que nos acontece quando morremos e após a morte? 



Índice
1. Há Coisas Surpreendentes a Acontecer Aqui 7
2. Um Pequeno Passo para o Homem, Um Salto Gigantesco para a Humanidade 23
3. A Fórmula da Vida 39
4. Reverter a Morte 57
5. A Órfã 89
6. Como é Morrer 121
7. O Elefante no Escuro 145
8. Compreender o Ego: Cérebro, Alma e Consciência 175
9. O Pós-Vida Que Conhecemos 197
10.O Estudo AWARE 219
11.O Que Significa Tudo Isto? 253
Agradecimentos 287
Colaboradores do Estudo AWARE 289
Bibliografia e Outros Recursos de Leitura 291



O DR. SAM PARNIA é um dos maiores especialistas mundiais no estudo da morte enquanto fenómeno científico. Dirige o Estudo AWARE, uma colaboração internacional de cientistas e médicos dedicada ao estudo do cérebro e da consciência humana durante a morte clínica. Trabalha com diversos hospitais e universidades nos EUA e em Inglaterra, como a Faculdade de Medicina da Universidade de Stony Brook, o Centro Médico WeiU Cornell de Nova Iorque e a Faculdade de Medicina da Universidade de Southampton. 



terça-feira, 10 de junho de 2014

EXPERIÊNCIAS DE QUASE-MORTE por Manuel Domingos

1ª Edição Nov. 2008


“Dezenas de portugueses penetraram no “outro lado da vida” e narraram aos autores deste livro as suas impressionantes experiências de Quase-Morte. Vivências transformadoras que nos suscitam a reflexão sobre o verdadeiro sentido da vida e a grande pergunta: Que “portas” abrirá a morte à nossa consciência? Uma coisa é certa: Em termos científicos, já não se pode afirmar que a mente e a consciência dependem do cérebro e do corpo físico para permanecerem vivas e em pleno funcionamento.”

“O cérebro recebe a consciência, mas não a produz.” Pim Van Lommel (Cardiologista holandês, cientista de referência no estudo das EQMs e que participa neste livro.)


ÍNDICE

Os AUTORES 9
PREFÁCIO, por Mário Simões 11
PRÓLOGO 15

Iª PARTE − TESTEMUNHOS 19

NOTA INTRODUTÓRIA 21
“Flutuava pela sala de operações”    31
“Há uma dúvida” 35
O homem que visitou o Céu 39
Uma vida, três experiências 41
“Um outro eu a sair de mim”             47
“É um estar de tranquilidade” 50
O Inferno e o Paraíso 57
“Vi coisas maravilhosas” 64
“Nunca vivi uma coisa igual”             66
A luz do caminho 67
“É aqui a minha missão” 70
Um túnel branco 73
A alegria de voltar a casa 76
O filme da vida 80
Cruzamentos de luz   85
“Não sei se foi um sonho” 89
“A minha mãe pôs-me no mundo duas vezes” 90
“Vi-me a mim mesmo” 93
As EQMs EM PESSOAS CEGAS 97
TESTEMUNHO DE UM MÉDICO 104
EQMs DE PERSONALIDADES 107
EMQs DE PERSONALIDADES DE HOLLYWOOD 108
Donald Sutherland 108
Elizabeth Taylor I09
Jane Seymour 111
Larry Hagman 113
Peter Sellers 114
Robert Pastorelli 115
Sharon Stone 117
EQMs DE PERSONALIDADES PORTUGUESAS 119
José Cardoso Pires 119
Adalberto Alves 129
Dalila Lello Pereira da Costa 133
Fernando Dacosta 134
Isabel Wolmar 141
Margarida Rebelo Pinto 150
Maya 159

IIª PARTE − CIÊNCIA 163

A TEORIA DAS EXPERIÊNCIAS DE QUASE-MORTE, por Manuel Domingos 165
CIENTIFICISMO E RELIGIÃO DOGMÁTICOS, por Charles T. Tart 198
SOBRE A CONTINUIDADE DA NOSSA CONSCIÊNCIA, por Pim van Lommel 201
ENTREVISTA A PIM VAN LOMMEL, por Paulo Alexandre Loução 233
ENTRE A CIÊNCIA E A TRADIÇÃO 239

IIIª PARTE − TRADIÇÃO 271

A SABEDORIA VIVA DAS ANTIGAS CULTURAS E AS EXPERIÊNCIAS DE QUASE-MORTE, por Paulo Alexandre Loução 273
O MITO DE ER de Platão 303
O SONHO DE CIPIÃO de Cícero 314

ANEXO 329

EXPERIÊNCIAS DE QUASE-MORTE EM SOBREVIVENTES DE PARAGEM CARDÍACA: UM ESTUDO PROSPECTIVO NA HOLANDA, por Pim van Lommel 331
CRÉDITOS FOTOGRÁFICOS 351

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PREFÁCIO

Por Mário Simões

(Professor Agregado de Psiquiatria e de Ciências da Consciência da Faculdade de Medicina de Lisboa)


 Recordo-me da primeira vez que ouvi falar das Experiências de Quase-Morte (EQM). Encontrava-me em Cambridge, no ano de 1992, numa conferência do Scientific and Medical Network. Peter Fenwick (neuropsiquiatra e neurofisiologista) apresentava os seus estudos sobre as EQM. Fiquei impressionado pela quantidade de dados que atestavam vários aspectos e que o decorrer do tempo só veio sedimentar: 1. Que o cérebro humano não funciona durante uma paragem cardíaca 2. Que a mente e a consciência podem continuar a funcionar durante aquele período 3. Que independentemente da etnia, local geográfico, dados epidemiológicos, idade, sexo ou época temporal as descrições de EQM, eram, na sua essência, sempre as mesmas. Nessa sequência, interessei-me pelo tema e não só vim a publicar um artigo de revisão sobre o tema como comecei a recolher casos que surgiam na minha consulta, participei em mesas redondas (uma delas, televisiva, com Cardoso Pires) e entusiasmado com as possibilidades da hipnose clínica, idealizei uma workshop sob hipnose, em que seria possível “vivenciar a sua morte”, melhor, uma EQM. Nestas vivências, em estado modificado de consciência, a realidade é a decorrente do estado e os sujeitos sentiram a realidade da EQM de tal modo que muitos se sentiram “zangados por os trazer de volta”, tal era o bem-estar que experienciaram.

 Parece, pois, que explicações remetendo apenas para explicações reducionistas das EQM, como sendo o resultado de alterações físicas e químicas do cérebro, não é suficiente, a menos que se admita que a auto-sugestão (a hipnose é auto-hipnose) é susceptível de promover aquelas alterações. Na realidade, alpinistas, que caindo de grande altura, na neve, pensaram que iam morrer, também relataram EQM. O problema torna-se mais complexo tendo em conta os dados acima referidos. Estaremos então a lidar com um fenómeno da consciência e esta seria uma instância subtil, independente no todo ou em parte do cérebro? Poderá tratar-se de um programa com o qual nascemos, que é “disparado” sempre que nos encontremos numa situação de quase morte real ou imaginada? Seria um “engrama” para nos recordar a “origem divina” da nossa essência, como muitas pessoas referem e os adeptos das teorias transcendentais tanto defendem?

 Uma tese de mestrado elaborada e publicada em Portugal, por Maria de Fátima Dias demonstrou a existência de “experiências subjectivas em coma”, que na sua maioria foram desagradáveis, tal como acontece em algumas EQM, provavelmente por se tratar de pacientes de traumatismos vários numa unidade de cuidados intensivos. Para acrescentar à complexidade do fenómeno refira-se que indivíduos cegos também relataram EQMs. Certo também, é que a maioria dos que experienciaram uma EQM mudaram a sua atitude geral na vida, com maior respeito pela vida em geral, com maior compaixão, como se tivessem sido “iniciados” num conhecimento teleológico, que os remete para o “amor divino incondicional”, que referem. Diga-se que enfrentar a morte, qualquer que seja a situação, não induz automaticamente uma EQM e as consequentes mudanças apontadas, e a investigação mostra que nem todos os que sofreram um ataque cardíaco mudam as suas atitudes na vida. Um outro aspecto interessante é o das revisões panorâmicas de vida, nas quais o indivíduo percebe, num auto julgamento, que todo o sofrimento que infligiu a animais ou outras pessoas é experienciado como seu.

 Um livro relativamente recente traz mais um contributo para este tema: DMT, The Spirit Molecule, de Rick Strassman. A Dimetil triptamina, um dos mais potentes psicadélicos derivados de uma planta, é também produzida pelo cérebro, mais precisamente pela glândula pineal. A injecção deste químico produz consistentemente EQMs, experiências místicas e, inesperadamente, encontros de 3° grau com alienígenas. Esta última situação é, curiosamente, referida por Isabel Wolmar na sua EQM. Terá a sua produção, pela pineal, em determinadas circunstâncias, os mesmos resultados? Já os hindus consideravam a pineal como o local do 7° chacra e Descartes como sendo o “sítio” da alma. Parece, pois, no estado actual da ciência e sem envolver uma explicação causal definitiva, que existem correlatos entre os estados vivenciais e psicofisiologias específicas.

 Encontramo-nos num ponto em que podemos concluir que nenhuma das teorias actuais, organicistas, psicológicas ou transcendentais, por si só, explica as EQM. Os autores deste livro dão um contributo corajoso, atendendo aos interesses científicos actuais, para o conhecimento de uma vivência que apetece desejar que seja mais frequente na Humanidade. 

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PRÓLOGO

Por Paulo Alexandre Loução (Historiador e filósofo)

 A ideia deste livro perseguia-nos há anos. Surgiu no ano de 1991 com a leitura no Figaro Magazine de um interessante artigo da jornalista Véronique Grousset sobre as novas fronteiras da ciência, o qual abordava as experiências de quase-morte como um facto que colocava em causa o paradigma vigente de que a consciência humana dependia do cérebro. Já tínhamos lido o livro de Raymond Moody, mas o texto do Figaro Magazine despertou em nós a perspectiva de abordagem para um tema que pode dar um grande contributo ao avanço da ciência no sentido de se abrir a novas realidades preservando o seu método, uma das grandes conquistas da Humanidade. O artigo de Véronique Grousset tinha sido escrito no contexto do colóquio internacional “Ciência para o Amanhã: um outro olhar sobre o Homem e o Mundo”, que decorreu na Sorbonne, em Paris, no mês de Fevereiro daquele ano. Vale a pena citar em excerto: “O pensamento não se reduz às moléculas. Não se pode localizá-lo no cérebro, e nada indica que seja produzido pelos neurónios. Sem dúvida, muito perturbador também, é o facto de 10% das vítimas de Experiências de Quase-Morte, reconduzidas à vida após a paragem do cérebro, afirmarem terem tido "percepções" (visuais, inteligentes ou auditivas; aliás, quase sempre idênticas) que sugerem que a consciência pode funcionar sem o cérebro, privada de todo o suporte molecular.”

 Resumindo: as "informações biológicas" parecem poder circular não só graças às moléculas, mas também entre elas, sobre um 'suporte' do qual nada se sabe. É, pois, importante pretender conhecer o 'todo' (quer dizer o ser humano) visto que se ignora a composição da soma das suas partes (…).”

 É essa demanda pelo conhecimento abrangente da Vida e do Ser Humano que nos anima, uma procura que, a nosso ver, terá, necessariamente, que ser transdisciplinar, científica e filosófica. Como o nosso trabalho de pesquisa se centra acima de tudo nas áreas da filosofia, história, matemática sagrada e antropologia do imaginário, considerámos que seria essencial escrever um livro desta índole em cooperação com um especialista idóneo na área da medicina, para que não resultassem dúvidas nem amadorismos nos enfoques sobre a relação entre cérebro, mente e consciência, que sempre considerámos entidades distintas.

 Foi no lançamento da nossa obra Lugares Mágicos de Portugal e Espanha que tivemos o prazer de conhecer o Prof. Dr. Manuel Domingos, e logo desde o primeiro minuto mostrou entusiasmo em participar neste projecto. O Prof. Doutor Joaquim Fernandes já me tinha falado dos estudos do neuropsicólogo Manuel Domingos sobre as EQMs, considerando-o em Portugal o investigador que mais casos tinha estudado. Na verdade, nas últimas décadas conheceu directamente no âmbito da sua profissão várias dezenas de casos, suficientes para formular a sua perspectiva. Tal como para Pim van Lommel, era (e continua a ser) para ele claro que não há uma explicação exclusivamente física para o fenómeno das EQMs.

 Fizemos o plano do livro. Uma primeira parte com testemunhos tanto de pessoas anónimas como de personalidades, estrangeiras e portuguesas. Uma segunda parte com textos científicos. E uma terceira parte que transmitisse uma síntese da visão das culturas antigas sobre o tema da morte e dos estados modificados de consciência.

 Convidámos a Dra. Patrícia Costa Dias, jornalista, para coordenar a primeira parte. Com a supervisão científica do Prof. Manuel Domingos e todo o seu profissionalismo recolheu 24 testemunhos em poucos meses. Nós próprios assistimos a algumas entrevistas e verificámos o quão importante e transformadoras são estas experiências para grande parte das pessoas. Era algo real, objectivo, e não produto da fantasia ou alucinação, precisamente como o próprio Carl Gustav Jung descreve a sua EQM, “algo totalmente objectivo” (ver pág.295).

 Na segunda parte, dedicada aos textos de índole científica, para além do artigo do Prof. Manuel Domingos, que coordenou esta secção, tivemos o privilégio de entrevistar Pim van Lommel, um cardiologista e cientista, que realizou um magnífico estudo prospectivo na Holanda, cuja síntese foi publicada  na Lancet, prestigiada revista de Medicina, e que reproduzimos em anexo. Também publicamos outro interessante artigo deste médico holandês e uma conversa entre nós e Manuel Domingos intitulada “Entre a Ciência e a Tradição”.

 Na terceira parte, publicamos um artigo nosso sobre a sabedoria viva das antigas culturas e as EQMs, e dois textos clássicos de referência sobre o tema, “O Mito de Er” de Platão e “O Sonho de Cipião” de Cícero. Agradecemos desde já as traduções directas para português do grego e do latim da autoria da Dra. Helena Gouveia e do Prof. Doutor Ricardo da Costa.

 Estamos convictos que com estas três partes, que se intercomunicam entre si, divulgamos junto do público português a realidade efectiva das EQMs, a qual nos propõe a reflexão sobre a possível realidade de um “outro lado da vida” e a possível continuação da existência da mente e da consciência depois da morte do corpo físico.

 De algum modo, fomos formatados na existência do tabu sobre o tema da morte. É o momento da ciência e da filosofia olharem novamente, sem preconceitos, para esse fenómeno não escamoteável da vida humana. Talvez nessa demanda possamos encontrar pistas para reencontrar finalidades mais duradouras e consistentes de que as propostas de efémero e de superficialidade da actual sociedade de consumo.     

 Este foi um trabalho colectivo, pelo que são muitos os agradecimentos a fazer. Ao Dr. Pim van Lommel pela sua simpatia e abertura em participar no nosso projecto; ao Professor Doutor Nuno Grande, pelo seu testemunho enquanto médico; à Dra. Margarida Casimiro, vice-presidente da ALUBRAT (Associação Luso-Brasileira de Psicologia Transpessoal) que colaborou desde o início, e ao Prof. Doutor Vítor Rodrigues, presidente da ALUBRAT, que proporcionou o lançamento oficial deste livro integrado no congresso científico daquela associação em Évora, em Novembro de 2008. Agradecemos muito à Dra. Carla Cavaleiro, doutoranda em neuropsicologia, pela sua generosidade em realizar as entrevistas na região de Coimbra e à Dra. Teresa Beirão, Dra. Maria do Sameiro Barroso, Dra. Paula Aguiar e D. Lurdes Feio, no apoio que deram para encontrarmos testemunhos. Neste contexto, um forte abraço amigo à actriz Paula Luiz e à Dra. Sandra Neves da Silva.

 Agradecemos a todas as personalidades portuguesas que tiveram a coragem e a generosidade de prestar o seu testemunho, ao nosso querido amigo, poeta, ensaísta e arabista, Adalberto Alves, à querida sibila da cultura portuguesa, como lhe chamamos, a escritora Dalila Lello Pereira da Costa, ao escritor e jornalista Fernando Dacosta, à histórica profissional da RTP Isabel Wolmar, à escritora Margarida Rebelo Pinto, e à apresentadora de televisão Maya.

 Agradecemos do fundo do coração a todos os outros relatos, absolutamente imprescindíveis, para que este projecto pudesse ser concretizado. Não podemos deixar de enviar de enviar uma saudação muito especial à D. Maria Manuela Jesus da Silva que também nos deu o seu testemunho e nos recordou o saudoso general Mário Jesus da Silva, autor da obra O Sortilégio da Cobra e verdadeiro aristocrata de coração.

 Obviamente, também agradecemos a colaboração do Prof. Doutor Mário Simões, também um pioneiro no estudo das EQMs em Portugal, que muito nos honrou com o seu prefácio. 

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